Entrevista. Presidente da Ajap apresenta figura do Jovem Empresário Rural

   

A primeira missão da Associação dos Jovens Agricultores de Portugal (AJAP) é representar os Jovens Empresários Agrícolas Portugueses, que são aqueles com idades compreendidas entre os 18 e os 40 anos. Mas, a sua acção não se esgota aqui. De diversas formas a AJAP procura contribuir para a modernização da agricultura e inverter a tendência de desertificação hoje verificadas em vários pontos do país. Ninguém melhor que o presidente da AJAP, Firmino Cordeiro, para nos falar sobre o rejuvenescimento, ou não, dos agricultores portugueses e as propostas da Associação.

 

 Voz do Campo: Que tipo de agricultura defende para Portugal?

Firmino Cordeiro: A agricultura que eu defendo para Portugal não pode ser toda igual nem pode ser tratada toda da mesma forma. Temos de olhar para Portugal como um país com características interessantes para a agricultura, para a floresta, para a criação de gado e outras actividades associadas. Mas, infelizmente, isso não se tem verificado.

 

VC: Qual é então a realidade?

FC: Todos os anos perdemos explorações e agricultores. Os números dos Censos de 2009 dizem que perdemos 11 mil explorações em 10 anos, ou seja, uma em cada quatro. Além disso, aumentou-se o índice de envelhecimento da população em 38% relativamente ao que se verificava há dez anos. A nível europeu temos o maior número de agricultores com mais de 65 anos e, em contrapartida o menor número de jovens agricultores.

 

VC: O que é que este cenário sugere?

FC: Um país com estas características tem de fazer um esforço muito grande no sentido de inverter esta tendência. Curioso é ser preciso quase um alerta da mais alta figura do Estado às diferentes forças políticas para dizer que a agricultura é estratégica em Portugal. Precisamos de mais jovens agricultores porque são eles que podem ajudar a combater a desertificação e as ameaças que cada vez mais se colocam ao Interior do país. São, aliás, palavras do Sr. Presidente da República.

As organizações, os agricultores e os políticos forçosamente têm de fazer alguma coisa porque todos têm responsabilidades.

 

VC: E por onde se deve começar?

FC: O ponto de partida é que temos agricultores envelhecidos e muito poucos jovens agricultores. Por outro lado, medidas de apoio do actual PRODER são desajustadas para os jovens agricultores. Por isso, o que se pede ao próximo Governo é que olhe para a agricultura como deve ser e esteja atento às mensagens que lhe chegam.

Depois, não se pense em agricultura só para produção de alimentos. Também é biodiversidade, actividades complementares como o turismo e o artesanato, em suma, manutenção das condições de vida no espaço rural.

Por outro lado, enquanto não motivarmos os agricultores, inclusive os mais velhos, para que eles acreditem na actividade que desenvolvem e que dificilmente encorajam os seus filhos a permanecerem na actividade.

 

“O capital, o custo do dinheiro, os capitais próprios e os actuais custos de máquinas, equipamentos e animais são um forte entrave e muitas vezes determinante da não opção. O acompanhamento antes da decisão de avançar de forma a acautelar os prós e os contras, durante a elaboração do projecto e após a instalação são essenciais mas não instituídos no nosso país. A ausência de políticas que verdadeiramente defendam a primeira instalação tem funcionado também como elemento redutor que impede este desafio para um jovem que se queira instalar”.

 

VC: Que palavras deixa para os jovens?

FC: A agricultura é uma possibilidade real e é uma actividade digna como outra qualquer. Mas implica uma melhor preparação porque é uma actividade de grande risco e o agricultor tem de dominar as áreas como o marketing, a informática, a contabilidade e mesmo línguas para poder fazer os seus negócios, para além de obviamente dominar o mais elementar que é a produção e as suas técnicas.

Mas se o agricultor tem de estar melhor preparado, as suas organizações também porque o modelo vigente actual não se compadece com as necessidades de futuro. O Ministério da Agricultura está moribundo, e nalgumas zonas do país o agricultor já tem dificuldades em encontrar quem o possa ajudar pelo que têm de ser as associações a assumir esse papel. Já provámos ao Ministério que conseguimos fazê-lo, mas exigimos meios para acorrer às necessidades diárias dos nossos agricultores que são cada vez maiores.

 

VC: Que grandes projectos tem a Associação?

 FC: Um projecto interessante que lançámos já há alguns anos é o do Jovem Empresário Rural. Uma nova figura para representar jovens que, sendo oriundos do espaço rural, mas não tendo a área suficiente em termos agrícolas para se instalarem como jovens agricultores, pudessem fazê-lo neste âmbito. Uma parte da área seria instalada na actividade agrícola e a outra em actividades complementares como por exemplo o turismo, o artesanato ou a limpeza de florestas, entre muitas outras opções. Isto faria com que os jovens se mantivessem no Interior com todas as consequências daí advindas. 

Esperemos que no novo quadro legislativo esta figura do Jovem Empresário Rural possa ser uma realidade.

Outra das nossas grandes preocupações a curto prazo vai ser a sucessão dos mais velhos para os mais novos, temos de batalhar no sentido de criar condições legítimas de dignidade aos agricultores, em idade de reforma e pré-reforma, para abandonarem a sua exploração em prol de alugarem ou passarem para os seus sucessores se os tiverem. É crucial que os agricultores mais velhos possam efectivamente sentir-se seguros no futuro com uma reforma condigna.

Parece-me também importante que para instalarmos mais jovens agricultores finalmente se dê seguimento ao Banco de Terras. Havia já um sinal de abertura, e de terras, por parte deste Ministério que esperemos venha a ter continuidade.

 

VC: Fale-nos um pouco da GLOBALCoop.

FC: É uma ideia que nasce no seio dos dirigentes, alguns associados e membros da AJAP mas nada tem a ver com a Associação. Está sediada na Chamusca e a preocupação que lhe está subjacente é que o pequeno e médio agricultor consiga desta forma comercializar as suas produções. Para já vai trabalhar com produtores de todo o país e de duas áreas, o vinho e o azeite.

A Cooperativa quer intervir desde a produção, acompanhando-a tecnicamente, até à colheita, embalagem e ao rótulo, sendo comercializada com uma marca chapéu já criada. Especificamente os produtos mais seleccionados, ou requintados, serão vendidos sob a marca GlolbalGourmet e os restantes com a marca Sabor e Saber do Campo, dividindo-se os produtos pelas diferentes zonas de produção, com os rótulos a apresentarem toda a informação sobre a produção.

Admitimos que é um projecto de grande dimensão com o qual queremos contribuir para escoar as produções dos agricultores em Portugal. Desta forma queremos também demonstrar que a Agricultura em Portugal não se faz só no Alentejo e Ribatejo.